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Eles disseram que ela tinha morrido de sífilis. Mas quando eles abriram seu caixão, o corpo dela revelou a verdade.

Em 1992, Mollie Maggia, uma trabalhadora de uma fábrica norte-americana, morreu tragicamente de uma hemorragia em sua veia jugular. Durante o ano anterior, seu corpo tinha começado a se desintegrar rapidamente. Primeiro foram seus dentes, que apodreceram um por um e tiveram que ser removidos pelo dentista. Mas ao invés de se recuperarem, suas gengivas ficaram ulceradas e cheias de pus, resultando na perda de sua mandíbula. Quando seu quadril quebrou, ela não podia mais andar e permaneceu imobilizada até o fim de sua vida que aconteceu pouco tempo depois. De acordo com seu atestado de óbito, ela tinha morrido de sífilis.

Uma após a outra, dúzias de mulheres começaram a morrer nos EUA por causa dos efeitos nocivos da radiação no corpo. Todas elas trabalhavam em fábricas pintando números fluorescentes em relógios. No começo, parecia um bom trabalho: elas ganhavam três vezes mais que trabalhadores de outras fábricas. As jovens mulheres estavam felizes por terem um tipo de independência financeira que outras gerações só podiam sonhar em ter.

No começo do século XX, os números dos relógios eram pintados com uma mistura que continha o elemento químico rádio, para que ficassem com sua luminosidade característica. Trabalhadoras, meninas jovens de 14 anos ou mais, eram instruídas a afiar a ponta dos pincéis com os lábios. Claro que, toda vez que faziam isso, elas ingeriam uma pequena quantidade da mistura, e os gerentes das fábricas negavam que isso oferecesse um risco potencial à saúde. Enquanto já se sabia que radiação era perigosa, os donos dessas empresas tinham financiado estudos fraudulentos que “provavam” que consumir a substância em pequenas quantidades era algo benéfico. Por isso que pessoas ricas bebiam água com rádio e até a usavam como ingrediente para maquiagem e comida (!).

A substância fluorescente era tão fashion que as jovens trabalhadoras até pintavam os dentes para fazê-los parecer mais brilhantes. As pessoas as chamavam de “ghost girls” (“meninas fantasmas”), pois o contato com a mistura tóxica fazia a pele delas brilhar no escuro.

Mas a verdade era que, pouco a pouco, elas estavam sendo envenenadas. Mollie foi a primeira a morrer, mas certamente não a última. Suas colegas sofreram o mesmo destino, ainda que com sintomas e problemas diferentes. Algumas deram à luz bebês mortos, outras tinham fatiga crônica. Seus corpos começaram a se desintegrar lentamente, com buracos se formando em suas peles, ossos virando pó e tumores crescendo por todo o corpo. Hoje, nós sabemos que o contato externo com radiação destrói o tecido humano, mas no caso delas era ainda pior, uma vez que o estavam comendo. Com o rádio dentro delas, o dano era infinitamente maior, e nada poderia ser feito para reverter o processo horrível.

Após as primeiras mortes, as mulheres sabiam do seu destino terrível. Nada poderia salvá-las do futuro terrível e doloroso que estava chegando. Mas havia que elas tinham que fazer, não por elas, mas por todas as meninas que ainda estavam empregadas nas fábricas: elas tinham que levar as companhias à justiça e evitar que outras morressem.

Assim começou uma longa batalha legal. As mulheres queriam provar que as companhias tinham mentido para elas e que o rádio era o que estava fazendo com que elas ficassem doentes.

No entanto, as fábricas tinham os estudos falsos que financiaram e que “provavam” que aquela não era a razão. Além disso, os donos da companhia afirmavam que os sintomas eram muito diverso e, por isso, inconsistentes para provar que o rádio os tinha causado. Em sua defesa, eles também usaram o atestado de óbito de Mollie, que dizia que ela tinha morrido de sífilis.

Apenas quando um homem morreu é que os especialistas levaram o caso a sério. Em 1925, Harrison Martland provou irrefutavelmente a conexão entre o rádio e o envenenamento sofrido pelas trabalhadoras das fábricas. E quando eles exumaram alguns dos corpos, não havia dúvidas: os corpos ainda tinham o mesmo brilho característico dos números que elas tinham pintado com as próprias mãos.

As mulheres estavam tão determinadas a expor a negligência dos donos da companhia que até continuaram a condená-los em seus leitos de morte. Jornais fizeram histórias de capa sobre a batalha e, ainda que as companhias negassem tudo e falsificassem autópsias, elas não podia mais esconder a verdade: eles tinham envenenado e matado suas trabalhadoras. Foi só em 1938 que os donos foram finalmente considerados culpados por negligência.

E quais são as consequências de sua vitória? Nada mais e nada menos do que uma mudança completa na forma como empregados trabalham.

Desde que conseguiram provar sua causa, companhias e fábricas foram obrigadas a garantir a segurança dos trabalhadores. Basicamente, vários direitos trabalhistas que ainda existem em diversos países até hoje são graças a essas mulheres corajosas. Infelizmente, as “meninas fantasmas” têm sido quase esquecido, ainda que suas conquistas continuem vivas. Esperamos que esta história e outras como esta manterão viva a sua memória para que ela seja devidamente honrada.

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