21

Após críticas, participante do Masterchef emociona ao contar o porquê de usar sempre a mesma roupa

Nem mesmo participar de um reality show é o suficiente para afastar as más críticas de nós, muito pelo contrário. É aí que a pessoa se torna pública e ‘merecedora’ de tais comentários. Afinal, está na TV, é para ser falado, correto? Errado.

Caroline Martins é um nome que talvez você não conhecerá, a não ser que assista o programa Masterchef Brasil, da Rede Bandeirantes. Pesquisadora do Instituto tecnológico da Aeronáutica (ITA), a participante foi alvo de diversas críticas pelo Twitter do público que assiste ao programa de TV.

Durante as terças – dia em que o programa é apresentado -, os comentários sobre Caroline são recorrentes e o motivo é sempre o mesmo: Suas roupas. De acordo com os internautas, a moça está sempre com as mesmas roupas, que são um vestido azul e um par de botas.

Após ver a repercussão de seu look nas redes sociais, Caroline contou que há uma “ideologia” em suas roupas e na repetição dela. Abriu o jogo também sobre a sociedade e como sofre com a ansiedade. Confira o relato completo da participante abaixo, na íntegra:

“Jovens, estou recebendo várias menções no Twitter sobre sempre usar as mesmas roupas, e acho legal compartilhar com vocês a ideologia por trás disso, pois este estilo de vida vai muito mais além das minhas vestimentas.

Com uma infância/adolescência um tanto quanto clichê, a TV sempre teve grande influência na minha formação sociológica. Cresci acreditando que a sociedade só me aceitaria se eu estivesse dentro do “peso ideal”, se eu estivesse com os cabelos lindos e sedosos, e também acreditava que só seria aceita se estivesse bem vestida e bem calçada.

Assim foi ditado, também, os meus 20 anos. Chapinha nos cabelos toda manhã para ir a faculdade. Maquiagem para esconder as olheiras. Unhas pintadas e cutículas aparadas. Dieta 24 horas por dia. E as roupas? Sapatos? Mesmo vivendo com pouco durante a faculdade, sempre achava uma forma de comprar roupas novas a cada visita ao shopping. Cartão Marisa: check! Cartão C&A: check! Cartão Renner: check! Inúmeros carnês de lojas populares, típicas de centrão de cidade do interior.

Durante o mestrado, ganhando um pouquinho a mais, dá-lhe quimica nos cabelos para alisa-los, dá-lhe dietas, dá-lhe liquidação de lojas populares. Afinal, pra quê apenas 1 casaco se podemos comprar 7 casacos, e dividir tudo em 10 parcelas, para aproveitar aquele frio entorpecente do inverno em Rio Claro (mínima 30 graus)?!

No doutorado mudei para uma cidade maior, amigos diferentes, ambiente diferente, pagamento maior, e como acreditava que o meu valor era ditado pela minha aparência: dá-lhe mega hair nos cabelos, dá-lhe mais dietas, dá-lhe Carmem Steffens, dá-lhe Mr. Office, dá-lhe Zara. Cartão de crédito sempre estourado. Sempre sem dinheiro. Viagem com os amigos? Não posso.

Dinheiro para um bom vinho? Não tenho. Tickets para assistir show das minha bandas favoritas? Não posso comprar. Dinheiro para comer em um bom restaurante? Não tenho.

O que eu tinha? Muitas roupas, muitos calçados, cintura 36, cabelos longos e sedosos, maquiagem top pra rebocar meu rosto e, claro, não pode faltar, creme anti rugas. Pois onde já se viu a mulher com quase 30 anos não usando creme anti idade?!

Aos 27 anos me preparava para iniciar um pós doutorado nos Estados Unidos. Tinha tudo para estar em êxtase. Porém, a idéia de inciar uma nova fase em outro país estava me causando mais ansiedade do que felicidade. E se não gostarem de mim?

Será que estou muito gorda? Será que a minha pele está manchada? Será que meu mega hair está hidratado? Como vou levar tantas roupa/sapato se o limite de peso da mala é 32 kilos? Será que as minhas roupas e calçados estão ultrapassados? Brega? Fora de moda?

Até que me dei conta: por que diabos estas perguntas estão brotando na minha cabeça neste momento? Por que estou tão focada na minha aparência, ao invés de estar focada nesta oportunidade estupenda de se viver em outro país, conhecer outra cultura, visitar novos lugares e trabalhar ao lado de feras da minha área?

Neste vortex de ansiedade e conflito, resolvi fazer o seguinte experimento: eu me mudaria para Austin levando uma mala com apenas 6 trocas de roupa e 2 pares de calçados. Eu passaria seis meses com “apenas” estas coisas. A minha mãe achou que eu estivesse ficando louca. E eu realmente estava. Louca e cansada de carregar tanta bagagem, tantas opções de vestimenta, e mesmo assim tanta insegurança sobre a opnião das pessoas ao meu respeito.

Nas primeiras semanas de trabalho eu ficava com medo das pessoas notarem que eu sempre usava as mesmas roupas. Na portaria do meu dormitório tinha medo até mesmo do porteiro notar. Sabe o que aconteceu? Ninguém notou. Em seis meses ninguém reparou as repetições das minha roupas ou dos sapatos. Ou se notaram, não verbalizaram.

Depois de 6 meses percebi que todas as minha neuras não mais faziam sentido. Percebi que as pessoas que gostaria que ficassem ao meu lado, não se baseariam apenas no que visto e no que calço. Se baseariam em suas afinidades para comigo.

Pela primeira vez experimentei a sensação de liberdade. Liberdade pois sei que carregava comigo somente o necessario, nada de excessos. Liberdade pois talvez eu não seja delimitada apenas pela minha aparência. Liberdade pois agora, finalmente, tinha dinheiro e limite no cartão para fazer tudo que realmente gosto.

Após estes seis meses, fui me libertando de coisas que achava essenciais: não preciso hidratar os cabelos 1 vez por mês; Não preciso remover cutículas toda semana; Não preciso usar salto alto no meu trabalho. Não preciso nem ao menos rebocar meu rosto para ir trabalhar. E por ai vai…

Quando voltei ao Brasil mantive a mesma ideologia: 6 trocas de roupa, 2 pares de calçado, apenas o básico. Somente o que me faz feliz. Este estilo de vida minimalista esta me trazendo muita alegria. Poderia dizer que esta me trazendo até mesmo paz.

Hoje em dia posso utilizar meu dinheiro de forma mais proveitosa. Churrasco para amigos e familiares. Viagens com meu marido. Deliciosas garrafas de Cote du Rhone. Tudo que sempre quis fazer, porém estava muito ocupada gastando o meu dinheiro no shopping procurando pelo “look perfeito”.

Me desprender do consumismo excessivo foi uma das minhas melhores decisões. Então, coleguinhas que me perguntam, a resposta é: Sim! Só tenho estas roupas! E, Sim! Só tenho duas botinhas! Com muito orgulho!”

O que acha do relato da participante? Torce por ela? Conta pra gente!

Compartilhe a matéria:

Imagem e mensagem

21 Comments

  1. Que fodaaaaa adorei ! E vou adaptar sim.. E n me importa o que acham e sim o q vivo!!!

  2. Ironia após a reportagem propaganda “dá uma renovada” da Loreal…. rsrsrs. Ótima matéria e estilo de vida.

  3. Que experiência maravilhosa! Ela é um gênio e os invejosos que se explodam. Torço para que ela monte o restaurante tão sonhado. Ela merece tudo e muito mais. Abraços Caroline! Te admiro muito!

  4. O que importa é que se sinta bem e feliz minha querida beijinhos ?

  5. tenho um par de tenis (melhorzinho) e outro para usar em casa, um sapato que pode-se dizer social mas uso pouquissimo, trocas de roupas um pouquinho mais que quatro,….isso já faz muitos mas muitos anos que faço isso e não tenho vergonha de nada……pois quanto mais leve eu fico mais alto eu voou ( São Francisco de Assis )

  6. Adorei ! Uma excelente escolha de vida. Ser simplesmente FELIZ. Parabéns Caroline , fez a escolha certa.

  7. Um chinelo,um tenis começando furar,uma sandália,dois sapatos (preto e branco).
    Basico ,a seis anos deixei de ser sentopéia.
    Casa, só estritamente o necessário,despensa acabou?vai comprar.
    Hoje vivo assim. Mas muita gente tbm vive assim, aquelas que geralmente não enxergamos ao nosso redor.

  8. As pessoas procuram ver so o que podem enxergar, haaaa se pudessem apenas ver sem criticar… So no Brasil acontece essas coisas.. Parabens pelo seu relato.

  9. Ninguém paga as nossas contas! Não devemos satisfação aos outros! Parabéns pelo que és, Caroline. Uma mulher excepcional, rica em conhecimento e em sinceridade. Bjs

  10. Fiquei emocionada Caroline! Até procuro viver assim! Sou casada com um homem conhecido, o jornalista Cid Moreira. Ele precisa ir em muitos eventos á trabalho, mas eu sempre sou muito básica também. Só tenho um lápis para os olhos, um batom e uma base, todos da Boticário. Também tenho pouquíssimos sapatos e roupas! Duas bolsas. Uma marrom e outra preta (combinam com tudo!). Quando tem um evento mais chique vou á um brechó, compro uma roupa mais “chique”, baratinha, depois dou para minhas irmãs ou amigas. Uso os casacos que as minhas sobrinhas que vivem nos Estados Unidos me dão. Me sinto super-bem. Quem me ama, me ama assim! Sou muito feliz com o meu marido, que também é bem simples.Um beijo e muito sucesso!

  11. Até enfim apareceu uma mulher sincera ousada, porque hoje a maioria das mulheres só querem consumismo e esquece até de comer bem para gastar em coisas superfulas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *